- Categoria: Matérias
Corrupção no Brasil - Causas e Efeitos
A Corrupção no Brasil, já de muito tempo, parece ter causas endêmicas que atravessam ciclos históricos e que aumentam o abismo entre ricos e pobres dificultando a credibilidade nas instituições.
Se pararmos para refletir sobre a questão veremos que os grandes filósofos já haviam discorrido sobre o assunto, antes mesmo de Sócrates e Aristóteles lançarem as bases da ética clássica. No entanto, foi um dos mais destacados iluministas, Jean-Jacques Rousseau quem mais contribuiu para a compreensão desse problema. Em sua obra “O Discurso sobre a origem da desigualdade” é emblemático ao explicar que os homens nascem sob a égide da desigualdade, visto que as habilidades naturais proporcionam a cada um, uma forma diferente de se destacar socialmente. Dessa forma, Rousseau explica que a igualdade é uma utopia impossível de ser colocada em prática, quando se trata de mensuração do potencial humano. São essas habilidades naturais diferenciadas que cada pessoa tem que faz com que a sociedade seja constituída de maneira tão plural. O que os sistemas totalitários tenta fazer é, em tese, tornar os diferentes, em pessoas iguais. No entanto, essa é uma coisa impossível de ser feia e, nem mesmo sistemas sociais como o comunismo ou o anarquismo conseguiram chegar a um consenso nesse sentido.
Em tese no comunismo todos seriam iguais e teriam o mesmo valor e o mesmo peso social, no entanto na prática, quem estava na cúpula do poder, acabava dominando os demais e, com isso possuía privilégios que os demais não detinham. Aqui chegamos em outro importante conceito que caminha de mãos dadas com a corrupção: o poder.
Nicolau Maquiavel, em sua obra máxima “O príncipe”, afirma que o poder corrompe as pessoas e isso é uma farta verdade. Quanto mais poder se dá a um homem, mais sedento dele ele se torna, faz de tudo para não perdê-lo e ainda mais para conquistar o que ele acha que merece. Mas por que isso? Se retomarmos os enunciados de Rousseau e veremos que as pessoas são narcisistas e tendem a supervalorizar sua condição humana. Por isso não se contentam em ter apenas o necessário para sua subsistência, buscam cada vez mais poder, pois o poder torna as pessoas admiráveis e lhes dá a capacidade de comandar. Ninguém gosta de ser comandado, mas todos gostamos de comandar, colocar todos sob o jugo de nossa vontade, para conseguir isso, precisamos de poder e, na sociedade hodierna, tão arraigada no capitalismo selvagem e no materialismo inconsequente, poder significa “dinheiro”, bens.
Passamos grande parte de nossas vidas buscando todos os elementos que nos conduzam a uma vida de poder e, é o afã de ter esse poder que nos distancia das coisas espirituais. Ao pensarmos porque o Brasil, um país tão belo não desponta no cenário geopolítico, verificamos que nosso país ainda carece de respeito na comunidade internacional, um dos componentes que faz com que as pessoas não nos respeitem é a impressão que causamos lá fora de que somos um dos países mais corruptos do mundo.
Essa, porém não é uma realidade plena, porém, também não pode ser descartada, visto que no ranking da corrupção mundial o Brasil ocupa a posição de número 79, ou seja, numa posição intermediária . Mas por que somos considerados tão corruptos?. Segundo Jürgen Habermas, um dos maiores filósofos contemporâneos considera que a corrupção é um fator cultural presente em sociedade nas quais as classes sociais estejam estratificadas de maneira extremamente diferentes. Assim, numa análise do processo histórico, quanto mais diferenciado for o processo de formação de uma sociedade, maior será o nível de corrupção do seu povo. No Brasil se verifica isso. Ao longo de muitos dois séculos fomos constituídos por civilizações que foram dominadas a força pelos colonizadores brancos e logo em seguida instalou-se no Brasil, como em toda a América o processo de escravismo. Quando esse processo começou a ruir, já no fim do século XVIII, os escravos brasileiros foram os últimos a serem libertos e, mesmo depois para manter a hegemonia dos brancos, ainda foi preciso mantê-los cativos, nas amarras da pobreza extrema, para que eles continuassem submissos.
Numa sociedade onde as classes sociais não se complementavam, mas se estratificavam cada vez mais e de forma mais acentuada, os ricos foram se isolando em pequenos feudos e os pobres se universalizando, criou-se assim, culturalmente o caldo necessário para o endemismo da corrupção no país, visto que em face das diferentes formas de se conquistar os meios de consumo e qualidade de vida, o cidadão comum passou a usar de suas habilidades amorais para conseguir chegar nos lugares onde jamais chegaria se tivesse tido uma conduta mais ética. Neste contexto, a corrupção serve como um atalho para se conquistar o poder. Porém, isso cria uma sociedade onde as lutas de classes tornam-se cada vez mais complexas e só quem ganha com isso são as minorias que se locupletam da falta de ética como meio para manter seu status quo.
As causas mais visíveis da corrupção encontra-se em hospitais caindo aos pedaços, com falta de médicos, medicamentos, macas e até curativos, em um sistema de segurança pública que serve para manter a hegemonia das elites socioeconômicas, na falta de educação para o povo e nas obras superfaturadas que subsidiam o sistema político eleitoral, que sob a égide de democracia, vende a ideia de esse é o sistema adequado a participação de todos. Uma falácia, visto que a democracia só existe na prática quando todos compartilham dos benefícios do desenvolvimento e no Brasil isso definitivamente não ocorre.
Pior do que as consequências concretas da corrupção é a alienação causada na população, que por não conseguir enxergar a resolução do problema e por não se ver como parte dessa solução, simplesmente se aliena e acha tudo normal. Isso serve de incentivo para mais corrupção. Para reforçar todos esses conceitos o Estado é comandado por agentes públicos comprometidos única e exclusivamente com os interesses de grupos, o que dificulta ainda mais a noção de coletividade.
Para desarticular esse tipo de conduta é necessário um trabalho de longo prazo, resgatando valores como o patriotismo, a sustentabilidade, o menor consumismo, a valorização da família e da religiosidade. No entanto, em face dos mecanismos de mídia, que alienam os jovens, que são o futuro da nação, dificilmente conseguiremos alçar todos esses compromissos, visto que não há uma liderança forte nesse sentido. O que a sociedade brasileira necessita é quebrar com o paradigma do “jeitinho brasileiro” e adequar-se a um conceito mais moderno que busque a valorização da ética em primeiro lugar e da moral como compromisso formador para as novas gerações.
Enquanto isso não acontecer, estaremos e continuaremos enxugando gelo, com uma escola ineficiente, com igrejas corrompidas, com um sistema político partidário viciado e com a formação de sociedade de dominados. Para mudar o quadro deprimente da corrupção no Brasil, primeiro precisamos mudar a mentalidade do cidadão comum, retirando-o da frente da televisão e investindo numa formação mais plural, sem isso, continuaremos sendo apenas a velha e requentada promessa de país do futuro, que nunca chega e nem nunca chegará.
Narciso Bastos PORTELA- M.: I.: - Grau 33º
José Fernandes de Castro JUNIOR – M.: I.: - Grau 18°
PARA SABER MAIS
ROSSEAU Jean-Jacques. O discurso da origem da desigualdade entre os homens. Disponível em: http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/desigualdade.pdf
HABERMAS, Jurgen. O Discurso Filosófico da Modernidade. Disponível em: http://gephisnop.weebly.com/uploads/2/3/9/6/23969914/o_discurso_filosofico_da_modernidade_-_jurgen_habermas.pdf
MAQUIAVÉL, Nicolau. O príncipe. Disponível em: http://www.fae.edu/pdf/biblioteca/O%20Principe.pdf
ARISTÓTELES. A Ética de Nicômano. Disponível em: http://portalgens.com.br/portal/images/stories/pdf/aristoteles_etica_a_nicomaco_poetica.pdf